19 abril 2016

A FOME

Autor: MARTÍN CAPARRÓS
Editora: TEMAS E DEBATES


Na procura dos mecanismos que estão na origem da inanição em massa e da luta contra ela, Martín Caparrós derruba barreiras geográficas e históricas, o que torna este livro não só uma análise crítica da história da fome mas também uma viagem a diferentes regiões do mundo, das mais pobres a algumas das mais ricas: o Níger, a Índia, o Bangladeche, a Argentina, Madagáscar, o Sudão do Sul e os Estados Unidos da América. «Se o leitor ou a leitora se der o trabalho de ler este livro, se se entusiasmar e o ler em - digamos - oito horas, nesse intervalo terão morrido de fome 8000 pessoas: 8000 são muitas pessoas. Se não se der esse trabalho, essas pessoas terão morrido na mesma, mas terá a sorte de não ter sabido disso.»


Há um excerto que, de certa forma, resume uma parte do problema para o qual Martín Caparrós nos vai alertando ao longo do livro. "Por agora, a mecanização concentrada da agricultura deixou o mundo cheio de pessoas de que a empresa global não precisa. Não só os camponeses deslocados pela - concentração produzida pela - utilização de máquinas mais potentes nos campos da Argentina, do Brasil, da Ucrânia, mas também os que desesperam nos campos da Costa do Marfim, da Índia ou da Etiópia porque os seus produtos já não podem competir com os daquelas zonas.
Muitos deles sobrevivem plantando como podem as suas terras, obtendo rendimentos dignos da época de Cristo. É difícil negar que há formas melhores de as aproveitar. Entre 1700 e 1960, a população mundial quintuplicou e as superfícies cultivadas também. Mas nos trinta anos seguintes - durante a Revolução Verde - a população aumentou cerca de 80 por cento e a terra cultivada apenas 8 por cento: a quantidade de alimentos disponíveis cresceu porque as mesmas terras produziram mais tudo isso.
Mas agora os países ricos chegaram - ou estão a chegar - ao seu limite e procuram novos espaços fora das suas fronteiras. O problema é que esses espaços - como sempre aconteceu - estão ocupados. Essa população é um incómodo: sobra, aborrece-os; tentam livrar-se dela para usarem as suas terras em benefício próprio. Para o mundo produzir mais comida - a comida cujos restos poderiam alimentá-los - os descartáveis têm de desaparecer: não têm lugar neste esquema de desenvolvimento concentrado".
Martín Caparrós falou com muita desta gente desprotegida e conta-nos a realidade de algumas dessas pessoas. Por exemplo, o caso de Aï, "Aï nunca teve comida suficiente, nunca foi a uma cidade, nunca teve luz elétrica nem água corrente nem um fogareiro a gás nem uma retrete, nunca deu à luz num hospital, nunca viu um programa de televisão, nunca usou calças, nunca teve um relógio nem uma cama, nunca bebeu uma Coca-Cola, nunca comeu uma pizza, nunca escolheu um futuro, nunca pensou que a sua vida pudesse ser diferente do que é.".
Outro facto a realçar é a "fome de género", já que "há muitas culturas onde a pouca comida é distribuída de tal forma que os homens recebem mais do que as mulheres", que resulta em duas trágicas consequências, por um lado mais de mil mulheres morrem de parto por dia devido a deficiências nutricionais e, por outro lado, "todos os anos nascem 20 milhões de crianças que não se formam plenamente e começam a sua vida com um peso inferior àquele que deveriam ter e viverão assim, porque os corpos mal alimentados das mães não produzem o leite necessário. É o mais vicioso de todos os ciclos: mães mal alimentadas que criam filhos subdesenvolvidos.".
Estes são apenas alguns exemplos que vamos lendo nesta obra, que merece toda a nossa consideração.

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