19 fevereiro 2015

O ACONTECIMENTO

Autor: AFONSO VALENTE BATISTA
Editora: GLACIAR

Os Da Purificação Bernardes. E o Estorvo. Ambrósio, que sonhava ser escritor. E o Estorvo. Por estes dias um primeiro-ministro morto. E o Estorvo. Há sempre alguém que, ainda hoje, nos estorva a esperança. Afonso Valente Dias traz-nos um romance sobre os dias que são todos assim: a crise que nos gela e estorva, mas um homem que ainda crê ser possível a Esperança.

O Estorvo,  “o Presidente do Conselho - cognominado pelos do reviralho o Estorvo – habitava o Palácio de São Bento (…) e mandava no país a que prometera criar um Estado Novo”. Este, “a princípio relutante ao chamamento, depois sentindo-se providencial, apoderou-se das obediências do povo e agarrou-se ao mando. E assim, com autoridade que dizia não se discutir, ficou a ser o seu dono, durante tanto tempo que o tempo teve o tamanho de uma eternidade”.
Os Da Purificação Bernardes,  “atravessaram os tempos como alguém que sempre viveu recostado em posses, teres e haveres. Medraram em negócios de terras e lavouras, ano bom, ano mau, o tempo e as suas imprecisões é que mandavam. Acomodavam-se ao que havia de vir na esperança que o divino não os iria abandonar”.
O Ambrósio, “que sonhava ser escritor e um dia poder escrever um livro sobre a esperança. (…) A vida, o destino, as forças do mundo, a arrumação no catálogo do Estado social, o que quer que fosse, puseram Ambrósio, que sonhava ser escritor, a viver de remedeios, essa coisa estranha como se fosse um limbo de ser um pobre menos pobre”.
Estas são as personagens principais, deste «Acontecimento». A estória é célere e na segunda parte do livro já se vive em democracia. Aliás, é precisamente quando se dá “o ACONTECIMENTO”, o tal “maldito navio virado de barriga para o ar mesmo em frente da imperial praça do falecido Império, transformado no único ACONTECIMENTO que amotinava as gentes, embora de forma pacífica, já fizera muito estrago à saúde mental do pobre povo que se estava a iniciar nos novos caminhos da liberdade e da democracia”.
E de repente, na terceira parte, eis que chegamos a um passado bem recente, onde “Está tudo falido. Os grandes jolas que estavam à frente dos bancos e das empresas nos States abotoaram-se com a narda toda e deixaram o pessoal a ver navios”. E quem vem à memória? O ACONTECIMENTO.
Este é um livro que se lê com um misto de sensações, que evoca pensamentos e quase que exorciza. 

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