18 fevereiro 2014

DESIGN ET AL


Coordenação: EMÍLIO TÁVORA VILAR
Editora: D.QUIXOTE

Dez perspectivas sobre o design escritas pelos mais destacados professores universitários portugueses. O design nas suas vertentes principais: industrial, comunicação, gestão, produto, investigação, multimédia, história e teoria.

Segundo Emílio Távora Vilar, este livro surge pois "não obstante de existir já um conjunto de sólidas abordagens teóricas, estas são geralmente de difícil transposição para o campo do projecto e têm-se revelado de pouca utilidade para quem precisa de ferramentas concretas para resolver problemas específicos ou para sustentar decisões. É pois necessária uma maior ênfase no desenvolvimento de uma vertente académica que proporcione um efectivo suporte à prática e que, ao mesmo tempo, possa contribuir de forma sistemática para um alargamento do corpo conceptual nesta área". Foi portanto com isto em mente que surgiu esta obra.
O primeiro texto, de Eduardo Aires, tem como tema os «Contributos para a definição de um modelo de análise gráfica», com o "propósito de estabelecer uma plataforma visual informativa, de modo a permitir um conhecimento e entendimento gráfico, analisando as primeiras páginas dos jornais diários portuenses que começaram a ser publicados na segunda metade do século XIX e atravessaram todo o século XX". O autor concluiu que "os esquemas organizam o conhecimento visual e gráfico do objecto de estudo e proporcionam informação acerca de como se processa, transformando dados abstractos invisíveis em fenómenos gráficos. Daí o seu carácter multifuncional, uma vez que não só mediatizam a compreensão como também a memória e o próprio comportamento. (...) Com esta metodologia, e tendo como referência as leis de Gestalttheorie, construiu-se um conjunto de soluções gráficas passíveis de serem aplicadas, em forma de esquema, não só às primeiras páginas dos jornais como a qualquer outro produto editorial impresso".
Já Emílio Távora Vilar abordou a «Gestão da imagem: o design como recurso estratégico", onde revelou que "em tempos de transição como os que se vivem, uma estratégia de imagem eficaz implica a compreensão do processo de desmaterialização em curso, a perspectivação do seu alcance e a capacidade de antecipação das situações que se alteram em sua função; implica ainda a adaptação às dinâmicas dos suportes virtuais - com uma atenção especial aos portais -, a exploração transversal e sinérgica dos novos media - cooptando designadamente valências audiovisuais e multimédia - e uma aproveitamento criativo das tecnologias de informação e comunicação". 
«Poeta, ou aquele que faz: design lacónico para um mundo menos cínico», por Francisco Providência, toca em temas como: ética do design, invenção do artificial; estética do design, esperança de superação da indiferença; três propostas para investigação em design: biodesign, ecodesign e metadesign; design português para um experiência da beleza; design criativo, da matemática à arte; design do assombro nos limites do dizível.
Heitor Alvelos apresenta-nos «The 'D' word: sete considerações e tácticas em redor da múltipla destituição do design», um ensaio redigido em 2012 e originalmente escrito em inglês. Um texto que pode não abordar obviamente o 'design' mas que se mostra como "metáfora dos dilemas urgentes que os designers enfrentam". Assim sendo, somos levados a olhar para O Natal dos Hospitais, a Feira Medieval de Santa Maria da Feira, a telenovela Dancin´Days, o iPod Suffle, entre outros, com uma perspetiva realista salpicada com humor. Há ainda espaço para o "The museum of me me me me me me me", o 'expressing oneself', onde se aborda a questão a difusão massiva do quotidiano (real? talvez não) no mundo virtual, bem como a ilusão de que se é ativista porque se faz um "gosto" numa causa divulgada no facebook. São exemplos de algumas questões que fazem pensar. A ler!
José Bártolo mostra-nos os «Modos de produção: notas para uma economia política do design», dado que "os modelos de produção alteraram-se e, com eles, um nova economia política do design foi surgindo. Uma verdadeira crítica da produção imaterial em design, uma semiótica da prática crítica contemporânea, afigura-se, por isso, como tarefa urgente e fundamental".
Para os leigos em design, talvez os próximos textos sejam particularmente interessantes, o primeiro, de Maria Teresa Cruz sobre «Arte & Design. Design & Estética. Ou os caminhos da razão técnica». Na primeira parte do texto, Maria Teresa Cruz fala sobre a semelhança entre arte e design: "A musealização do design, ao suscitar por fim, com toda a clareza, um regime especificamente estético de acolhimento do design, traz uma nova luz ao velho debate sobre arte e design, mostrando ao mesmo tempo os seus limites e equívocos. (...) As semelhanças entre as obras de arte e os objectos de design modernos são sensíveis para o olho do espectador mais inocente. As mesmas linhas geométricas, as mesmas superfícies lisas, o mesmo despojamento ornamental. (...) Seja qual for a dramatização da sua diferença, o facto é que ambos, arte e design, participam intensamente desse movimento de abstração e de simbolização que a razão moderna leva a cabo em todos os domínios da realidade.", sendo que a autora aborda ainda o design e a estética. No segundo texto, Mário Moura, fala sobre «Escrever sobre design na internet». Neste texto o autor começa por explicar que na opinião dele escrever num blogue não é menos importante do que publicar num jornal ou numa revista. "Porquê escrever na internet?", pergunta, "Porque é fácil", responde. "No caso de um designer, a possibilidade de escrever ou ler um texto no mesmo computador que usa para trabalhar é provavelmente a grande causa da explosão crítica na área que ocorreu nos primeiros anos deste século". Mário Moura conclui "não há design sem sociedade, e a fundação da sociedade democrática é o debate". O terceiro texto que destacamos é de Paulo Parra, sobre «As origens do design português: 'design suave'», onde o autor refere: "ultimamente tem-se falado muito de design no nosso país, mas normalmente é de design importado ou então de design nacional importado, que significa produtos concebidos em Portugal segundo moldes internacionais". De facto, Paulo Parra recorda que "hoje todos os territórios têm a sua bandeira, mas na época das Descobertas muitos povos terão contactado pela primeira vez com uma bandeira, através da nossa. Tal aconteceu com o mobiliário (...) e a caravela (...) e o português, moeda mandada cunhar por D.Manuel I em 1499, e que é considerada a primeira moeda global...". O autor lembra ainda que "a nossa história está presente ao longo de milhões de anos, em que desenvolvemos componentes, produtos, sistemas, até chegarmos ao inovador chip de papel...".
Vasco Branco, por sua vez, escreveu sobre «Design e investigação em design: algumas reflexões», onde concluiu que "ironicamente, parece que o que torna um designer investigador é uma sessão de auto-análise que lhe permita passar a escrito o que decidiu e revelou o desenho e cujo contributo inovador deveria ser avaliado pelos pares, na sua própria linguagem. (...) Provavelmente qualquer atelier de design é um laboratório de investigação. Se não é, poderia ou deveria sê-lo".
Victor M. Almeida estudou o «Design em Portugal: da democratização à popularização», onde concluiu que se verifica "um desconhecimento generalizado da real dimensão da disciplina nas escolas de ensino básico, o que se traduz, inevitavelmente, numa diminuição na procura dos respectivos cursos no ensino superior. Se atendermos à transversalidade disciplinar como uma característica essencial do design, será fácil partilhar o conceito de que em todas as outras áreas científicas, pedagógicas e ocupacionais há design implícito. Basta que nos mobilizemos a explicá-lo à sociedade".
Se é designer, deve ler. Se é professor na área, deve ler. Se é leigo na área, deve ler.

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