16 abril 2013

OS FILHOS DO ZIP ZIP

Autora: HELENA MATOS
Editora: A ESFERA DOS LIVROS


Em 1960 existiam em Portugal 31 256 televisores. Dez anos depois, eram dez vezes mais: 387 512. Uma televisão custava, em média, 50000$00. Um valor significativa à época, mas um bem sentido como necessário para todos. Rodar o botão e esperar que o ecrã sintonizasse era um ritual. O país parava em frente à televisão. Para ver As Conversas em Família de Marcello Caetano, para ver chegar o Homem à Lua ou para assistir a um programa que mudou a forma de ver televisão em Portugal. Marcou uma geração e transformou um país. Zip-Zip. Um programa coapresentado por Carlos Cruz, Raul Solnado e Fialho Gouuveia. Pelo Zip-Zip passaram desde Almada Negreiros a um anónimo limpa-chaminés que nunca havia sonhado aparecer no pequeno ecrã. Houve polémica, transgressão, riso e muito divertimento.

No entendimento da autora os filhos do Zip-Zip não foram os primeiros a ver televisão, porque muitas das crianças só tiveram acesso à televisão após o golpe de estado de 1974. Para Helena Matos, filhos do Zip-Zip são todos aqueles para quem o que se via na televisão se tornava tema de conversa, são as crianças que brincavam fora de casa. Geração à qual a autora pertence.
Neste relato sobre a vida de Portugal nos anos 70 (período do marcelismo) a autora começa por descrever a fuga do interior para as cidades do litoral, em particular da aglomeração de pessoas nos subúrbios de Lisboa, e as consequências sociais deste fenómeno, como a proliferação do negócio imobiliário é disso exemplo, muitas vezes praticado à margem da lei. Outras das consequências é o aparecimento das grandes superfícies comerciais (Pão de Açucar) que vieram ameaçar o comércio tradicional. Tudo isto nos primeiros dois capítulos de um total de 23.
O conteúdo deste trabalho é, portanto, imenso. O Portugal dos anos 70 descrito por Helena Matos aborda diversos temas entre os quais a importância da televisão (Zip-Zip, Festival da Canção), o flagelo da juventude (sexo, drogas e rock n´roll), a massificação do automóvel, os brinquedos didácticos, o aumento do delito (assalto a bancos), a questão religiosa e o enfraquecimento da censura antes do 25 de Abril, assim como a "emancipação" da mulher.
Se este livro tem tudo para agradar aos mais saudosistas, é também uma boa sugestão para quem quiser estudar uma época da história portuguesa marcada pela mudança. O texto é complementado por inúmeras imagens como folhetos, páginas de jornal, anúncios publicitários, que serviram como fonte de informação para a autora e podem agora invocar nostalgia no leitor. De realçar que Helena Matos colaborou na série «Conta-me como foi» da RTP como consultora histórica, sendo este livro resultante da pesquisa feita para a série.

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