Pular para o conteúdo principal

Postagens

A VIDA NA TERRA - UMA BREVE HISTÓRIA

A vida encontra sempre caminho! E este é um livro cheio de vida. Biólogo evolucionário e editor sénior da Nature, Henry Gee sintetizou, com grande dinamismo, uma história de 4.6 biliões de anos na Terra. É uma narrativa sobre o delicado equilíbrio no qual a vida persiste, tenaz.  Compreender a escala de tempo geológico não é trivial, mas, com engenho, Gee conseguiu passar uma noção muito clara sobre os diferentes ciclos de vida na Terra, ao relacionar as adaptações das espécies às mudanças ambientais com que estas se confrontaram, de forma a que a vida continuasse o seu trajeto, após eventos de extinção em massa. Desde os estromatólitos (há ~4 mil milhões de anos), aos hominídeos.  Entre muitos outros aspetos, gostei de aprender sobre a correlação entre a envergadura e a dispersão de calor dos dinossauros, sobre o papel da glaciação na evolução, as espécies que regressaram aos mares, a dança das placas tectónicas, as árvores ocas da floresta carbonífera, o voo, a espinha dorsal, o ovo…
Postagens recentes

A VIDA CONTADA POR UM SAPIENS A UM NEANDERTAL

  - Olha, Arsuaga, és um narrador oral formidável. Para as pessoas ignorantes como eu, explicas-te melhor quando falas do que quando escreves. - Devo isso às aulas – explicou ele – Temos de inventar mil e um recursos para os alunos não adormecerem. - (E)u e tu podíamos fazer uma parceria para falarmos sobre a vida. - Que tipo de parceria? - Mais ou menos assim: Tu levas-me a um local, ao local que quiseres: a um sítio arqueológico, ao campo, a uma maternidade, a um tanatório, a uma exposição de canários… -E? -E falas-me sobre o que estamos a ver, explicas-me tudo.   Bom, como dá para perceber neste diálogo de abertura, A Vida Contada por um Sapiens a um Neandertal, tem um tom muito informal e a abordagem aos tópicos é, sobretudo, introdutória. Entre os locais visitados temos uma sex shop, onde uma funcionária muito curiosa entra no diálogo com Arsuaga, para desconforto de Millás. Isto faz com o que o livro seja simultaneamente apelativo tanto para quem gosta de ler divu

KLARA E O SOL

  Em Klara e o Sol, Kazuo Ishiguro criou uma sociedade distópica que, não obstante perturbadora, é muito familiar. Não nos é dada uma localização temporal, mas sabemos que não é necessariamente um futuro longínquo.   Klara, a nossa narradora, é uma Amiga Artificial, programada com um grande sentimento de empatia e curiosidade – cujo desígnio é evitar que uma jovem se sinta sozinha. Sempre senti Klara como uma humana enclausurada num manequim de silício e isto desencadeou um sentimento de grande ansiedade, sobretudo porque a primeira parte do livro se desenrola lentamente, e a aprendizagem de Klara é limitada pela perspetiva que tem do mundo a partir das posições que ocupa na loja – o mesmo acontece com o leitor. A visão do mundo e as experiências da nossa narradora, introduzidas subtilmente, são um convite implícito à reflexão sobre o impacto da tecnologia e do individualismo competitivo nas nossas sociedades (hoje). Gostei particularmente como em curtos diálogos são abordados dile

DANTE. UMA VIDA

  Em Dante. Uma Vida, Alessandro Barbero apresenta uma investigação bem documentada de um homem da Idade Média, inserido na sociedade, na economia e na tumultuosa vida política da comuna italiana.  É uma reconstrução da vida do poeta, os vestígios do seu pensamento e filosofia, temperada com as pistas que deixou na sua obra, embora estas não constituam a fonte preferencial para Barbero – os comentários aos excertos das obras revelam as limitações das mesmas para inferir sobre Dante. Esta é uma obra de um historiador, que cava o mais possível em fontes primárias, como escrituras notariais e atas de reuniões públicas em que Dante surge como participante ou visado. De particular interesse são também as referências a outros estudiosos de Dante. Barbero faz eco das várias teorias concorrentes a respeito de Dante, para evidenciar o quanto se sabe (pouco, sobretudo após o exílio de Dante, já aclamado poeta), o quanto se especula, e o que se ignora. De Alessandro Barberi. Quetzal . Saiba m

MADAME CURIE

  Escrito pouco tempo depois da morte de Marie Curie (1867-1934), pela sua filha mais nova Ève, este livro é uma encantadora homenagem à mulher, mãe e cientista. Num mundo conservador, Marie Skłodowska Curie foi, contra todas as probabilidades, a primeira mulher cientista a obter reconhecimento mundial (nunca desejado). Muito para além da cientista excecional, vencedora de dois Prémio Nobel, Ève revela a dimensão humana verdadeiramente inspiradora de Marie Curie. Esta é uma obra completa, qualquer que seja a nossa perspetiva. É uma biografia intemporal de uma mulher “maior do que a vida”, é um livro de divulgação científica que celebra uma mente única, é uma emocionante história de amor à família, ao laboratório, à pátria oprimida. É também uma grande história de superação. Devido ao altruísmo e humildade (características que partilhava com Pierre), Marie teve muito perto de não fazer carreira científica numa primeira instância e, mais tarde, o casal teve sempre problemas de fina

UMA HISTÓRIA DE EXTREMOS

                                                   "Observar simplesmente as provas do passado e extrapolá-las para futuros eventos pode tornar-se rapidamente estranho.   Imaginar as coisas que aconteceram muitas vezes na história a repetirem-se durante a era moderna é deslizar para a ficção científica (...) Qual é a ligação entre o passado factual e o futuro especulativo?". Com o título original The End is Always Near , este livro recupera muitos momentos na história onde a civilização esteve segura de si própria antes de desabar ou quase. Será ficção científica imaginar futuros arqueólogos a tentar decifrar a nossa linguagem, o código da nossa escrita e quem fomos? Autor do popular podcast "Hardocore History", no qual baseia este livro, Dan Carlin descreve-se como um historiador amador. "Se a biblioteca de uma pessoa é uma janela para os seus interesses aparentemente a minha tende para o apocalíptico."  Uma leitura sobre acontecimentos extremos num tom b

A ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

  A Era da Inteligência Artificial oferece uma visão geral sobre as questões emergentes em domínios como a segurança nacional, geopolítica, privacidade e sociedade em rede. Uma conclusão geral é a da inevitabilidade da corrida pela IA, sobretudo devido à competição. O tom é realista, sem excesso de entusiasmo e receio quanto ao futuro. Os autores alertam que, ao contrário da ficção científica, não se deve esperar que a IA se recusará a obedecer a ordens e se revoltará contra os humanos, nem tão pouco se irá parecer com estes. Na verdade, é já omnipresente. Esta é uma noção importante para a exposição equilibrada que se encontra nas páginas deste livro. Os desenvolvimentos em IA ocorrem com diferentes níveis de input humano e, tal como explicado num dos capítulos iniciais, passam por conferir à máquina uma maior autonomia de aprendizagem ou enveredar por uma maior cooperação entre humanos e máquinas. Neste contexto, a ética e a regulação são, como esperado, discutidas pelos autores.